sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Enquanto ela aqui estiver, ainda está tudo bem… | Crítica

Para hoje, crítica literária sobre um clássico da literatura. Confesso que sou um adepto convicto dos clássicos e, por isso, decidi partilhar com vocês uma obra de que gosto muito!

Como escrever cem páginas sobre o quotidiano, uma história comum, das vidas comuns como há tantas por aí? Como são cem páginas suficientes para aprofundar caracteres, ir ao fundo da questão, penetrar na situação até ao que de mais fundamental ela tem? Só Fiódor Dostoievski o faz. Bem, talvez não seja o único mas é, sem dúvida, um dos melhores. Tanto o faz nas cem páginas de A Submissa como nas seiscentas e trinta de O Idiota, tanto o faz ao contar a história do príncipe Lev Nikoláevitch como a do prestamista viúvo.
Um retrato na primeira pessoa do dia-a-dia de um casamento falhado, uma descrição pormenorizada e altamente realista do pensamento da personagem que permite ver o que mais ninguém vê, saber o que mais ninguém sabe: as motivações antes das acções. E quem sabe o que o escritor omitiu? O mais interessante é a evolução do pensamento, a linha causal da lógica do personagem, na vida real inacessível a terceiros, na literatura frequentemente desvalorizada. Em A Submissa, Dostoievski junta-se a Victor Hugo na forma de escrever altamente realista, onde os pensamentos do personagem constituem a narrativa principal do enredo. Tal como o condenado à morte da obra de Victor Hugo, o prestamista de A Submissa protagoniza a história através do seu pensamento e ideias justificativas para o acontecimento onde a narrativa vai desembocar: a morte de sua mulher. O leitor acede ao oculto, ao frequentemente desvalorizado, ao não suficientemente explorado na literatura, à versão da história tal e qual como vivida pelo personagem.
submissa
Quem ler O Idiota e A Submissa encontrará semelhanças, não na forma mas no conteúdo. A vida de um condenado ao julgamento erróneo dos outros, da sociedade. Problemas de expressão ou visões divergentes do pensamento dominante (ou talvez a junção de ambas) criam estas personalidades rejeitadas cuja dificuldade de inserção social gera tão ricas histórias. E eles são bons, genuinamente bons, bons de uma maneira que não pode ser compreendida pelas forças que mantêm este mundo em movimento, bons de uma maneira condenada à exploração e aproveitamento dos outros em seu proveito.
A mulher morrerá. A submissa cometerá suicídio. É dado adquirido, facto consumado. É o próprio quem nos diz, ele que nada viu senão o corpo já sem vida. Não nos iria mentir… De seguida, conta-nos uma história, a história de como se conheceram, a história do seu casamento, a história dos acontecimentos que levaram até aquele trágico momento. Disso nada mais sabemos, a não ser o trágico final. Oh, mas tudo se revelará. No fim saberemos tudo - quando, como, porquê, porque não… Um vencido da vida que venceu a mulher ao tentar salvá-la e foi vencido por ela na tentativa da sua própria salvação. A culpa percorre todo o livro, todo o monólogo interior que é dito numa tentativa de compreender a morte daquela mulher, a mulher que nunca foi verdadeiramente sua. A cada página um novo gesto, um novo sinal, uma expressão nova que é decifrada e justificada e que, normalmente, não conheceria qualquer interesse ou nem sequer seria notada. Aqui, nada é ao acaso.

Vale a pena ler.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

10 dicas (in)falíveis para ser publicado

Recupero hoje uma lista que elaborei há algum tempo atrás com o intuito de divulgar dez dicas que acho fundamentais para qualquer escritor que queira publicar e divulgar os seus escritos.

Quero começar por dizer que estas dicas são apenas conselhos e não podem ser aplicadas universalmente. Ainda assim, penso ser importante partilhar experiências e trocar ideias para que haja mais clareza em todo o processo da edição. Eu sinto o processo desta forma, se alguém o sentir diversamente que partilhe e comente.


Dito isto, como proceder para publicar um livro em Portugal? Vamos por passos:



1) Escrever um original. Obviamente terão de começar pelo início e escrever um livro. Para esta fase, dois conselhos: originalidade e enquadramento. Mais do que uma história fantástica ou um enredo de perder a cabeça, um bom livro tem de refletir o escritor e o seu estilo próprio de escrita, estar enquadrado na sua obra. A não ser que queiram escrever literatura de algibeira e romances infindáveis sobre a mediocridade do nada e a essência do vazio, encontrem o vosso estilo de escrita, desenvolvam-no e expliquem-no. Os leitores gostam de se identificar com o autor e a sua escrita e o editor irá valorizar esse aspeto acima de tudo. Não vale de nada escrever uma ótima história que não passa de uma imitação de outros livros já existentes e acreditem, existem milhares de livros por aí. Um bom escritor é aquele que tem uma personalidade forte e declarada e orienta a sua escrita nesse sentido. Acreditem, esta é a parte mais fácil...



2) Produzir conteúdos. Hoje em dia, todos somos inundados com os mais diversos conteúdos. São milhares e vêm de inúmeras fontes. A expansão das tecnologias de informação alargou o leque de meios que temos para comunicar e para comunicarem connosco. Desde o tradicional outdoor ou a normal revista mensal até aos tablets e redes sociais, os conteúdos produzidos e partilhados são quase infinitos. Este aspeto é extremamente importante. É preciso compreender que os leitores estão constantemente expostos a esta infindável informação e tendem a perder o seu foco e atenção. O autor tem de conseguir controlar esta variável e jogá-la a seu favor. Nos dias que correm, o autor tem de concorrer nesta competição diária por visualizações ou gostos no Facebook. É fundamental criar e manter uma presença on-line com um perfil nas redes sociais, um blogue ou um site. O mais importante é ir produzindo conteúdos que cheguem facilmente e diretamente ao público para que as pessoas não se esqueçam do autor e do seu trabalho.



3) Divulgar o seu trabalho. Quantos livros existem no mundo? Multipliquem por 100 ou até por 1000 e terão a quantidade aproximada de novos escritores, novos originais, novos textos que são produzidos todos os meses. É demasiada informação, demasiada produção. Isto acontece porque escrever um livro não é difícil, difícil é promovê-lo no meio de tantos outros. É fundamental que as pessoas leiam o livro. Em caso contrário, será apenas mais um desses milhares de originais que ficam perdidos algures entre a gaveta e a livraria. Mais uma vez, redes sociais, blogues e sites são ótimas ferramentas mas não são suficientes. Apesar do avanço nas tecnologias, ainda vivemos no mundo real e devemos sempre privilegiar o contacto interpessoal pois os nossos leitores são pessoas e são eles que fazem o nosso sucesso. Sessões de leitura em cafés, livrarias ou bibliotecas são ótimas estratégias.



4) Promover a sua imagem. Vivemos no mundo das marcas, a edição não é diferente. Não basta ser publicado por uma editora de sucesso, proprietária de uma marca consolidada. O autor tem de cultivar uma marca própria e criar interesse em torno da sua pessoa. Só assim se tornará próximo o suficiente dos leitores para que a sua obra seja lida, relida, comentada e emprestada diariamente. Um autor excelente com livros maravilhosos não vale de nada se não tiver uma presença constante e consistente junto dos seus leitores.



5) Pesquisar sobre as editoras nacionais. Só depois de tudo isto estar feito ou pelo menos encaminhado é que o autor deverá procurar uma editora para publicar o seu original. Lembrem-se que as editoras são empresas à procura de lucro, nenhum editor irá publicar o trabalho de um desconhecido. Mostrar trabalho feito e alguma base de seguidores já constituída é meio caminho andado no sentido da publicação. Neste passo, o autor deve selecionar as editoras para as quais irá enviar o original. Para além de ser uma perda de tempo, será também um erro enviar o original para todos os contactos que encontrar. As editoras funcionam através de linhas editoriais, planos estratégicos que guiam as escolhas dos editores. O autor tem aqui um importante trabalho de pesquisa e seleção para encontrar as editoras cuja linha editorial seja adequada ao seu livro.



6) Procurar os contactos diretos do editor ou do assistente. Chegámos à parte complicada! Esta é a fase crucial de todo o processo. Esqueçam a qualidade da escrita ou a brilhante abordagem à narrativa, nada disso importa sem os contactos certos que possam tirar o livro da gaveta. Imaginem uma caixa de correio eletrónico que todos os dias recebe e-mails de novos autores com excelentes originais de 100 ou 200 páginas cada um. Se a isso juntar-mos a deficiente engenharia empresarial das editoras que não está desenhada para dar uma resposta eficaz a esta característica específica deste negócio, temos a receita para que 90% dos novos livros não sejam sequer lidos por um editor. Se querem mesmo publicar um livro, o meu conselho é darem tudo por tudo para encontrar o contacto direto de um editor ou do seu assistente. Fujam dos e-mails gerais!



7) Elaborar uma carta de apresentação e uma sinopse do livro. Livros há muitos e, geralmente, tendem a ser compridos. Um editor tem várias ocupações profissionais para além da leitura de originais e só irá ler aqueles que lhe chamarem a atenção. A melhor maneira para conseguir este feito é através de uma carta de apresentação e uma sinopse do livro. A carta de apresentação deve dar a conhecer o autor de forma breve e focar os aspetos mais relevantes do seu percurso. Não enviem currículos detalhados com todos os cursos e formações que fizeram. A ideia é apresentarem-se, demonstrar que têm valor como escritores e como comunicadores, cativarem o editor... A sinopse deve apresentar o livro, resumindo-o ao essencial e focando a principal linha de pensamento da obra, evitem contar a história do livro ou escrever um resumo do mesmo. É apenas uma apresentação. Estes dois anexos que devem ser enviados com o original são absolutamente fundamentais pois irão apresentar o autor e a obra e determinar se o livro chega sequer a ser avaliado pelo editor.


8) Abordar o editor. Já expliquei aqui, em crónicas anteriores, que o editor é um responsável de uma empresa que procura receitas e lucros. Neste sentido, a abordagem ao editor deve evitar sentimentalismos e objetivos irrealistas. "Vou ser o próximo Saramago!", "Este livro é um Nobel garantido", abordagens deste tipo devem ser evitadas. Deve-se explicar concisamente os objetivos e apresentar resultados preliminares concretos. Um bom editor prezará a consciência da realidade do autor que está a avaliar e premiará projetos consistentes acima de livros ocasionais. O autor deve tentar, sempre que possível, agendar uma reunião pessoal com o editor para que seja mais fácil explicar tudo isto.

9) Apresentar o livro. Imaginemos que conseguiram a tão desejada publicação: o trabalho acabou de começar... Claro que o livro já está publicado mas as cópias não vão voar sozinhas das prateleiras das livrarias. O trabalho do autor ainda não acabou! O marketing das editoras portuguesas é muito mau e insuficiente. Se querem que o vosso livro se torne num best-seller têm de fazer pela vida e levá-lo até ao grande público. Divulgação, conferências, palestras, entrevistas, artigos, comunicados de imprensa, sessões de autógrafos, sessões de leitura, apresentações em bibliotecas, livrarias, feiras do livro... Há muito trabalho a fazer e, aqui, as possibilidades são imensas. Lembrem-se: são as pessoas que leem o vosso livro e que o compram. São as pessoas que criam os escritores de sucesso. Saiam para a rua e falem com essas pessoas.

10) O futuro. Parabéns! Agora são escritores publicados e até já venderam algumas cópias. Desenganem-se, não são ninguém... Ainda ninguém vos conhece, ainda ninguém respeita a vossa opinião, a vossa escrita. Escritores publicados há milhares, escritores lidos e respeitados há meia dúzia. A melhor forma de continuarem a construir a vossa carreira no mundo da escrita é continuarem a escrever, a produzir. O ideal é que o público se vá gradualmente habituando à vossa presença e à vossa escrita. Continuem com o blogue e não desistam das redes sociais. O ideal é conseguir uma crónica ou um espaço qualquer numa revista ou num jornal. Escrever, escrever, escrever. Não deixem passar mais de um ano até lançarem o segundo livro e depois é só encontrarem o vosso ritmo. O mais importante é não caírem no esquecimento..

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ainda nas Tertúlias | Tertúlia Lisboa

Ainda sobre o tema de ontem, as tertúlias literárias, post que podem espreitar aqui.

As tertúlias são, de facto, um capítulo muito importante do mundo dos livros. Momento por excelência de liberdade e criatividade que, sem qualquer dúvida, ajuda na formação dos escritores e no amadurecimento da sua escrita e apura o ouvido e o gosto dos leitores. Certamente já ouviram a velha ideia de que um livro ganha novos sentidos a cada leitura. Adicionalmente, é também verdadeira a ideia de que esses novos sentidos variam na sua qualidade e profundidade mediante o ambiente em que a leitura é feita. A percepção de uma leitura nunca é igual quando esta é feita interiormente, no recato do individual, ou alto e em bom som visando a partilha com outras pessoas sedentas de nos ouvir. Inevitavelmente, também o juízo que fazemos sobre o texto muda e somos capazes de o entender de uma outra perspectiva. Este é um dos motivos porque estes eventos são tão procurados por escritores e criativos e tão participados por leitores que anseiam em descobrir novas interpretações para os seus textos favoritos.


Por valorizar tanto este tipo de eventos desenhados para reunir e aproximar escritores e leitores, a Livros de Ontem, editora que represento, decidiu recentemente criar um ciclo de tertúlias literárias, em parceria com o Café 100 Artes, em Lisboa, cujo resumo em vídeo desejo partilhar hoje com vocês.

O vídeo é um pequeno documentário dividido em três parte. Podem aceder nos seguintes links:

Primeira parte

Segunda Parte

Terceira Parte

Espero que gostem e que vos crie suficiente curiosidade para participarem na próxima edição da Tertúlia Lisboa, com data a definir em breve.


Crédito da fotografia: Café 100 Artes

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Tertúlias Literárias | Simplesmente obrigatórias

Tertúlias. O post de hoje é sobre tertúlias e a sua importância para a literatura.



Uma tertúlia é uma reunião periódica e informal de pessoas criada em torno de um interesse específico comum a todos os participantes. Está, normalmente, associada à literatura e às artes e tem como lugar eleição os cafés. Este hábito cosmopolita foi popularizado em Portugal pela geração d'Orpheu, conhecida pelas suas frequentes reuniões nos cafés da capital: A Brasileira, Nicola, entre outros.

Infelizmente, com o advento do Estado Novo, a escrita abandonou o hábito de reunir a uma mesa de café, entre pares, e votou-se à solidão criativa que se tornou no cliché número um de qualquer escritor. A literatura não tem de ser solitária, escrever não deve ser um acto de isolamento. O ser humano é um animal social e gregário, talhado para conviver entre os da sua espécie e foi a sociedade construída a esta imagem. O escritor que contraria esta natureza arrisca-se a produzir uma obra distanciada do real, desligada do mundo contemporâneo e, por consequência, pouco interessante para o leitor.

A tertúlia é um evento de networking, de estímulo à criatividade, pensado não só para escritores como para leitores, editores, críticos, bloguers ou simplesmente curiosos. É no acto de partilha e de exposição do trabalho que nasce o aperfeiçoamento da obra. Numa tertúlia escutam-se variadíssimos textos que oscilam entre o clássico inspirador e o inédito nunca antes lido em público. A partir daí comenta-se, critica-se, fala-se, partilha-se. E o texto vai-se moldando na cabeça do escritor, alimentado por todas opiniões e contribuições que vai ouvindo dos seus pares.

A tertúlia é a vanguarda. É lá que os escritores testam os seus textos, que os editores procuram as novidades, que os bloguers buscam material. Os contactos trocam-se e as parcerias nascem. É fundamental que os escritores se conheçam entre si e que tenham a possibilidade de conhecer os leitores. E não tenham dúvidas: um leitor que se ganhe numa tertúlia desenvolverá com o autor uma relação incomparavelmente mais forte e profunda que aquele que meramente tropeça no seu livro numa qualquer livraria.


Cabe à nova geração de escritores e editores promover este tipo de encontros. Cabe ao leitor exigir que mais se faça, em quantidade e qualidade. A literatura pertence às ruas da cidade, não aos livros poeirentos que esperam nas estantes das livrarias.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Da rejeição de publicação

"Feeling discouraged? Rejected? Don’t worry. We’ve all been there."


Ontem deparei-me com um artigo algo curioso publicado no site buzzfeed.com sobre a rejeição de publicação de trabalhos literários. Numa lógica de demonstrar que todo o escritor sofre desta imprevisibilidade quanto à publicação das suas obras, o artigo é composto de uma lista de vinte autores intemporais e absolutamente incontornáveis do panorama literário internacional que apenas com muita força de vontade e perseverança conseguiram a edição dos seus textos.

Quem nunca leu E Tudo o Vento Levou de Margaret Mitchell, O Livro da Selva, de Rudyard Kipling ou O Triunfo dos Porcos, de George Orwell?

Pois saiba que todos estes livros viram a sua publicação negada por editoras sob os mais variados pretextos. E Tudo o Vento Levou foi rejeitado trinta e oito vezes, Rudyard Kipling acusado de não saber utilizar a língua inglesa e, a propósito de O Triunfo dos Porcos, considerou-se que não haveria mercado para publicações sobre animais nos Estados Unidos.

A existência deste fenómeno não é novidade nem consequência de um desinvestimento na cultura e no livro. Como demonstrado pelo artigo supracitado, desde sempre que os editores têm escolhido o que lemos e, consequentemente, tomado decisões erradas. 

Se, por um lado, a existência de uma marca e de uma actividade de selecção e análise são elementos desenhados para conferir mais credibilidade às publicações e para reduzir o risco associado à compra do livro, por outro, cria-se uma relação dialéctica entre a edição e a transparência.

Quais os critérios de selecção para os originais publicados? Qual deverá ser a relação entre autor - editor - leitor? Deverá o livro responder perante a lógica do mercado e submeter-se às dúbias leis da oferta e da procura?

Irei voltar a estes temas nas próximas publicações para tentar compreender um pouco melhor o que é e o que deve ser o mercado editorial. Entretanto, quando um amigo vosso vos mostrar o livro que acabou de escrever e que ninguém quer publicar leiam com atenção. Poderá ser o próximo a entrar nesta lista…

O artigo pode ser consultado aqui.

Antes de iniciar a escrita

O texto obrificado, paginado para a eternidade entre capa e contra-capa, parece sempre tão bem construído e arrumado que é capaz de frustrar qualquer escritor que se encontre em processo de escrita. Sempre que escrevo não leio, sempre que leio não escrevo. É inevitável em mim o sentimento de comparação entre os meus escritos, ainda rabiscos numa folha de papel sem jeito, e as palavras acabadas e genialmente conjugadas dos livros de outrém. Compara-se o incomparável, um erro que pode ser deveras desmoralizante.

A escrita e a leitura são ambos processos imersivos que pressupõem uma certa dose de concentração e dedicação. Não misturar estes dois processos é um conselho que dou vivamente a quem esteja a escrever qualquer coisa.

No post de ontem referi cinco dicas de carácter geral para ultrapassar o bloqueio criativo. De facto, as ideias que aqui deixei são tão gerais que podem servir para qualquer área ou momento da vida. Hoje proponho algo mais concreto e aplicado à escrita.

- Esquema: a primeira coisa a fazer quando se quer iniciar a escrita de algo mais substâncial e complexo é um esquema. Uma esquema de história deve ser um elemento visual que ajude a materializar o enredo que, nesta fase, não passa de várias ideias a fervilhar na nossa cabeça. Como sei que traços de personalidade terão os meus personagens? E quais os laços que se irão establecer entre eles? E quais os cenários, pontos de enredo, conexões secundárias, etc., etc., etc.? Um dia voltarei com mais detalhe a este ponto para partilhar a minha ideia de como elaborar um bom esquema de história.

- Evitar/combater a página em branco: a página em branco é, sem dúvida, o pior inimigo do escritor. O branco é o vazio, a ausência, algo sem início que teremos de continuar e, eventualmente, finalizar. É extremamente difícil para o escritor decidir onde colocar o início de uma história e enquadrá-la no horizonte temporal que pretende. Uma boa planificação da história deverá ajudar a estabelecer um início para o que se pretende contar. Ainda assim, o melhor a fazer é desistir da ideia de começar pelo início. O importante é começar! Comece pelo meio ou pelo fim, comece a três quartos, mas comece. No fim poderá reescrever tudo e reorganizar o original.

- Gravar as ideias: neste ponto do nosso processo de escrita as ideias jorram às golfadas na nossa mente criando uma grande confusão e um enorme turbilhão de pensamentos que tão depressa aparecem como se desvanecem. Uma boa maneira de as preservar é gravá-las oralmente. Entre o pensamento e a escrita muita informação se perde, essencialmente porque moldamos a ideia em estado bruto num encadeamento ornamentado de palavras que tende a corromper a mensagem que realmente queríamos transmitir. A oralidade ajuda a preservar alguma dessa frescura para, mais tarde, a podermos trabalhar com mais calma. Neste momento toda a informação é preciosa.

- Caderno de escritor: sem dúvida o melhor amigo de quem escreve. Desde sempre que os escritores têm estabelecido relações de culto com os seus cadernos de apontamentos onde rascunham grandes obras. Escolha o seu com cuidado e não tenha problemas em investir nele um pouco mais. Um caderno de escritor deve ser inigmático, curioso, bonito e apelativo. Deve ser mais que um bloco de notas. Quando escrever nele, deverá sentir vontade de não o rasurar e de aprimorar a letra. Sobretudo, um caderno de escritor é importante para criar um sentimento especial em relação à escrita e não a deixar cair na trivialidade do quotidiano.

Ultrapassar o bloqueio criativo

Diz o dicionário da Língua Portuguesa que criatividade é ter a capacidade de criar; originalidade; engenho. Quer isto dizer que a criatividade não é um atributo divino nem uma arte inacessível ao comum dos mortais.

Como para tudo na vida, existem métodos e técnicas para promover a criatividade e instrumentos que nos permitem tirar o máximo partido desta vertente humana. É preciso desmistificar!

O bloqueio de escritor

O bloqueio criativo não é mais do que a evolução contemporânea do antigo bloqueio de escritor. Esta adaptação provém do marketing e da publicidade que se estão progressivamente a afirmar como disciplinas “sexy” e a relegar para segundo plano o saber-fazer dos escritores vistos como velhos, antiquados. Acredito fortemente que este é um conteúdo no qual os escritores têm uma palavra a dizer e reconheço também que se deve ao seu demérito e inação que, hoje em dia, os formadores, oradores e “opinion-makers” sobre este facto provêm, na sua grande maioria, de outras áreas que não a escrita.

Decidi então criar uma espécie de guia com conselhos e recomendações sobre as melhores técnicas para ultrapassar a página em branco ou o bloqueio no enredo de uma história. Hoje publico cinco dicas de carácter mais geral. Amanhã publicarei instrumentos e ferramentas mais práticas e concretas.

— Pesquisa criativa: talvez o primeiro passo a dar na construção de uma história. A pesquisa criativa não é uma busca por dados concretos, antes, é uma revisão rápida e livre do que já se fez e do que se está a fazer no momento. Deve ser uma pesquisa orientada para a procura de tendências e deve-se focar no aspeto estético. Serve para inspirar e não para analisar. Uma imagem sugestiva, um filme com uma perspetiva totalmente nova, uma canção que nos leva a pensar de outra maneira um determinado tópico…;

— Apontar as ideias: uma ideia é um conceito, ou seja, é uma elaboração complexa sobre um conjunto de fatores que se agrupam. Isto quer dizer que uma ideia é um juízo que se elabora sobre o que se observa. Uma ideia é tão mais interessante quanto o seu grau de sofisticação e este grau é tão mais elevado quanto o número de conexões e interligações necessárias para a formar. É indispensável apontar tudo quanto se observa, por mais ridículo que possa parecer. Em conjunto, diversas observações podem originar um ponto de vista nunca antes expresso. Para além disso, escrever uma ideia é uma forma neurologicamente comprovada de libertar o cérebro para novas pesquisas e associações;

— Procurar uma musa: a criatividade pode ser trabalhada e a inspiração também. Ao contrário do que se pensa, esta última não surge do acaso. A inspiração é um entusiasmo criador, ou seja, é um impulso que depende de um estímulo externo. Todos nós temos qualquer coisa que nos inspira, que nos estimula à atividade criativa;

— Sair da rotina: a rotina é o pior inimigo da criatividade. Como se pode ser original e desenvolver novas associações de ideias se estamos permanentemente rodeados do mesmo ambiente externo? O nosso cérebro é como uma máquina que produz consoante os inputs que recebe. É indispensável variar estes estímulos externos a que estamos sujeitos fazendo variar o tipo de atividades que desempenhamos, o grupo de amigos com o qual convivemos, o tipo de sítios que frequentamos, etc;

— Viver!: viver é o segredo. Fazer coisas, experimentar o mundo, ser atrevido e não ter medo de errar. As experiências são a melhor fonte de alimentação para o cérebro, sejam elas positivas ou negativas. Com base no que vivemos e conhecemos do mundo, seremos capazes de produzir determinadas visões cujo interesse dependerá da sua inovação. Saia, conviva, observe. Torne o mundo no seu laboratório pessoal e escreva sobre isso.