Recupero hoje uma lista que elaborei há algum tempo atrás com o intuito de divulgar dez dicas que acho fundamentais para qualquer escritor que queira publicar e divulgar os seus escritos.
Quero começar por dizer que estas dicas são
apenas conselhos e não podem ser aplicadas universalmente. Ainda assim, penso ser
importante partilhar experiências e trocar ideias para que haja mais clareza em
todo o processo da edição. Eu sinto o processo desta forma, se alguém o sentir diversamente que partilhe e comente.
Dito isto, como proceder para publicar um livro
em Portugal? Vamos por passos:
1)
Escrever um original. Obviamente
terão de começar pelo início e escrever um livro. Para esta fase, dois
conselhos: originalidade e enquadramento. Mais do que uma história fantástica
ou um enredo de perder a cabeça, um bom livro tem de refletir o escritor e o
seu estilo próprio de escrita, estar enquadrado na sua obra. A não ser que
queiram escrever literatura de algibeira e romances infindáveis sobre a
mediocridade do nada e a essência do vazio, encontrem o vosso estilo de
escrita, desenvolvam-no e expliquem-no. Os leitores gostam de se identificar
com o autor e a sua escrita e o editor irá valorizar esse aspeto acima de tudo.
Não vale de nada escrever uma ótima história que não passa de uma imitação de
outros livros já existentes e acreditem, existem milhares de livros por aí. Um
bom escritor é aquele que tem uma personalidade forte e declarada e orienta a
sua escrita nesse sentido. Acreditem, esta é a parte mais fácil...
2)
Produzir conteúdos. Hoje em dia,
todos somos inundados com os mais diversos conteúdos. São milhares e vêm de
inúmeras fontes. A expansão das tecnologias de informação alargou o leque de
meios que temos para comunicar e para comunicarem connosco. Desde o tradicional
outdoor ou a normal revista mensal
até aos tablets e redes sociais, os
conteúdos produzidos e partilhados são quase infinitos. Este aspeto é
extremamente importante. É preciso compreender que os leitores estão
constantemente expostos a esta infindável informação e tendem a perder o seu
foco e atenção. O autor tem de conseguir controlar esta variável e jogá-la a
seu favor. Nos dias que correm, o autor tem de concorrer nesta competição
diária por visualizações ou gostos no Facebook.
É fundamental criar e manter uma presença on-line
com um perfil nas redes sociais, um blogue ou um site. O mais importante é ir produzindo conteúdos que cheguem
facilmente e diretamente ao público para que as pessoas não se esqueçam do
autor e do seu trabalho.
3)
Divulgar o seu trabalho. Quantos
livros existem no mundo? Multipliquem por 100 ou até por 1000 e terão a
quantidade aproximada de novos escritores, novos originais, novos textos que
são produzidos todos os meses. É demasiada informação, demasiada produção. Isto
acontece porque escrever um livro não é difícil, difícil é promovê-lo no meio
de tantos outros. É fundamental que as pessoas leiam o livro. Em caso
contrário, será apenas mais um desses milhares de originais que ficam perdidos
algures entre a gaveta e a livraria. Mais uma vez, redes sociais, blogues e sites são ótimas ferramentas mas não são
suficientes. Apesar do avanço nas tecnologias, ainda vivemos no mundo real e
devemos sempre privilegiar o contacto interpessoal pois os nossos leitores são
pessoas e são eles que fazem o nosso sucesso. Sessões de leitura em cafés,
livrarias ou bibliotecas são ótimas estratégias.
4)
Promover a sua imagem. Vivemos no
mundo das marcas, a edição não é diferente. Não basta ser publicado por uma
editora de sucesso, proprietária de uma marca consolidada. O autor tem de
cultivar uma marca própria e criar interesse em torno da sua pessoa. Só assim
se tornará próximo o suficiente dos leitores para que a sua obra seja lida,
relida, comentada e emprestada diariamente. Um autor excelente com livros
maravilhosos não vale de nada se não tiver uma presença constante e consistente
junto dos seus leitores.
5)
Pesquisar sobre as editoras nacionais. Só
depois de tudo isto estar feito ou pelo menos encaminhado é que o autor deverá
procurar uma editora para publicar o seu original. Lembrem-se que as editoras
são empresas à procura de lucro, nenhum editor irá publicar o trabalho de um
desconhecido. Mostrar trabalho feito e alguma base de seguidores já constituída
é meio caminho andado no sentido da publicação. Neste passo, o autor deve
selecionar as editoras para as quais irá enviar o original. Para além de ser
uma perda de tempo, será também um erro enviar o original para todos os
contactos que encontrar. As editoras funcionam através de linhas editoriais,
planos estratégicos que guiam as escolhas dos editores. O autor tem aqui um
importante trabalho de pesquisa e seleção para encontrar as editoras cuja linha
editorial seja adequada ao seu livro.
6)
Procurar os contactos diretos do editor ou do assistente. Chegámos à parte complicada! Esta é a fase crucial de
todo o processo. Esqueçam a qualidade da escrita ou a brilhante abordagem à
narrativa, nada disso importa sem os contactos certos que possam tirar o livro
da gaveta. Imaginem uma caixa de correio eletrónico que todos os dias recebe e-mails de novos autores com excelentes
originais de 100 ou 200 páginas cada um. Se a isso juntar-mos a deficiente
engenharia empresarial das editoras que não está desenhada para dar uma
resposta eficaz a esta característica específica deste negócio, temos a receita
para que 90% dos novos livros não sejam sequer lidos por um editor. Se querem
mesmo publicar um livro, o meu conselho é darem tudo por tudo para encontrar o
contacto direto de um editor ou do seu assistente. Fujam dos e-mails gerais!
7)
Elaborar uma carta de apresentação e uma sinopse do livro. Livros há muitos e, geralmente, tendem a ser
compridos. Um editor tem várias ocupações profissionais para além da leitura de
originais e só irá ler aqueles que lhe chamarem a atenção. A melhor maneira
para conseguir este feito é através de uma carta de apresentação e uma sinopse
do livro. A carta de apresentação deve dar a conhecer o autor de forma breve e
focar os aspetos mais relevantes do seu percurso. Não enviem currículos
detalhados com todos os cursos e formações que fizeram. A ideia é
apresentarem-se, demonstrar que têm valor como escritores e como comunicadores,
cativarem o editor... A sinopse deve apresentar o livro, resumindo-o ao
essencial e focando a principal linha de pensamento da obra, evitem contar a
história do livro ou escrever um resumo do mesmo. É apenas uma apresentação.
Estes dois anexos que devem ser enviados com o original são absolutamente
fundamentais pois irão apresentar o autor e a obra e determinar se o livro
chega sequer a ser avaliado pelo editor.
8)
Abordar o editor. Já expliquei aqui,
em crónicas anteriores, que o editor é um responsável de uma empresa que
procura receitas e lucros. Neste sentido, a abordagem ao editor deve evitar
sentimentalismos e objetivos irrealistas. "Vou ser o próximo Saramago!", "Este livro é um
Nobel garantido", abordagens deste tipo devem ser evitadas. Deve-se
explicar concisamente os objetivos e apresentar resultados preliminares
concretos. Um bom editor prezará a consciência da realidade do autor que está a
avaliar e premiará projetos consistentes acima de livros ocasionais. O autor
deve tentar, sempre que possível, agendar uma reunião pessoal com o editor para
que seja mais fácil explicar tudo isto.
9)
Apresentar o livro. Imaginemos que
conseguiram a tão desejada publicação: o trabalho acabou de começar... Claro
que o livro já está publicado mas as cópias não vão voar sozinhas das
prateleiras das livrarias. O trabalho do autor ainda não acabou! O marketing das editoras portuguesas é
muito mau e insuficiente. Se querem que o vosso livro se torne num best-seller
têm de fazer pela vida e levá-lo até ao grande público. Divulgação,
conferências, palestras, entrevistas, artigos, comunicados de imprensa, sessões
de autógrafos, sessões de leitura, apresentações em bibliotecas, livrarias,
feiras do livro... Há muito trabalho a fazer e, aqui, as possibilidades são
imensas. Lembrem-se: são as pessoas que leem o vosso livro e que o compram. São
as pessoas que criam os escritores de sucesso. Saiam para a rua e falem com
essas pessoas.
10) O
futuro. Parabéns! Agora são
escritores publicados e até já venderam algumas cópias. Desenganem-se, não são
ninguém... Ainda ninguém vos conhece, ainda ninguém respeita a vossa opinião, a
vossa escrita. Escritores publicados há milhares, escritores lidos e
respeitados há meia dúzia. A melhor forma de continuarem a construir a vossa
carreira no mundo da escrita é continuarem a escrever, a produzir. O ideal é
que o público se vá gradualmente habituando à vossa presença e à vossa escrita.
Continuem com o blogue e não desistam das redes sociais. O ideal é conseguir
uma crónica ou um espaço qualquer numa revista ou num jornal. Escrever,
escrever, escrever. Não deixem passar mais de um ano até lançarem o segundo
livro e depois é só encontrarem o vosso ritmo. O mais importante é não caírem
no esquecimento..