sábado, 8 de fevereiro de 2014

Da escrita e do escritor

São frequentes os comentários que desvalorizam livros ou escritores, discutindo se são realmente dignos de serem tratados como tal. Opiniões divergentes quanto à qualidade da forma ou conteúdo de um escrito costumam desembocar em negação do título de escritor.

Por essa razão, escrevi este texto. Na tentativa de dar um contributo para a resolução deste tipo de conflitos elaborei a minha visão sobre a categorização para o título de escritor.

Alguma opinião divergente?

O médico pratica a medicina; o advogado pratica a advocacia; o professor pratica o ensino. E o escritor?

Seguindo o raciocínio, o escritor será aquele que escreve, o que me levanta uma questão: hoje em dia, todo o indivíduo não só sabe ler e escrever como o faz a todo o instante do seu dia. Certamente que não podemos seguir este caminho, senão todo o indivíduo será considerado escritor e a categorização cairá num vazio.

Da mesma forma que todos quanto escrevem com grande regularidade não são escritores, também não são médicos todos os que medicam um doente (como faz a mãe ao dar comprimidos ao filho sem terem sido prescritos pelo médico; ou como fazemos todos ao adotar certos hábitos para mantermos a nossa saúde e qualidade de vida), não são advogados todos o que julgam e argumentam a favor ou contra outros indivíduos, nem são professores todos os que ensinam algo a alguém. Então, se não podemos distinguir o escritor pela sua atividade, que outro elemento explicativo podemos nós encontrar?

Frequentemente, um indivíduo é considerado escritor quando tem um livro publicado e acessível para consulta por parte da sociedade em geral. Não me parece que assim seja, nem que esta tipologia sirva para o efeito. Segundo ela, um médico só o seria após ter curado um doente, um advogado só o seria após defender um arguido e um professor só o seria após ter ensinado um aluno.

Esta definição não contém nada senão problemas. Em primeiro lugar não se pode classificar um profissional pelo seu sucesso em determinada tarefa pois, para a ter executado, ele já precisa ser considerado como tal. Não parece lógico a ninguém que um médico cure o seu primeiro doente com sucesso antes de ser considerado médico, tal como também não é admissível que um advogado defenda um arguido antes de ter o certificado em como está habilitado para tal. O mesmo acontece com o professor que não será admitido em nenhuma escola se não for considerado apto para desempenhar tal tarefa previamente. Também o escritor não pode adquirir o seu conceito distintivo apenas após ter publicado o primeiro livro.

Quantos indivíduos há por aí que têm uma grande quantidade de obras e textos arrumados na gaveta, nunca publicados? Não serão também eles escritores? E os que escrevem blogues, crónicas, colunas, opinião, não serão também eles escritores também apesar não terem um texto publicado no formato a que nos habituámos a chamar livro? E aqueles que contam já com um ou mais livros publicados por grandes editoras cujo conteúdo é, por exemplo, dedicado à culinária e apenas contém receitas compiladas e imagens ilustrativas? Serão esses escritores, apesar de terem publicado um livro sem uma única frase criativa? Quem são os escritores?

6 comentários:

  1. Os que sentem que são. Se a lógica não ajuda, passemos à emoção.

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  2. Excelente resposta! Também gosto de pensar assim. Curioso isto das artes: todos são artistas e ninguém o é verdadeiramente.

    Obrigado pelo comentário =)

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  3. Gosto da perspectiva levantada pelo texto. Para mim são escritores os escrevem Literatura e Paraliteratura.

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    1. E qual o seu conceito de Literatura e Paraliteratura, cara Maria?

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  4. Só quase um ano depois chego a este post, espero não ser tarde demais. Em primeiro lugar, parece-me que as comparações feitas no texto são descabidas: só são referidas profissões que exigem um curso prévio para serem praticadas. Por exemplo, um médico precisa de o ser antes de praticar a medicina, por casa desse curso. No entanto, um empregado de balcão não o é antes de servir às mesas. Ou um fotógrafo não o é antes da primeira fotografia. Nem isso lhe faz falta. Não digo que não fosse melhor se tivesse tirado um curso de fotografia, mas não é necessário. Por isso também, um escritor não o é, na minha opinião, antes de publicar. Antes escreve, depois passa a ser escritor quando daí advêm proveitos. Um homem que corta carne em casa não é um talhante, mas sê-lo-á a partir do momento em que vai para um talho trabalhar.

    Isto para dizer que não concordo com o texto. Percebo o ponto de vista, mas não concordo. Eu, que escrevo diariamente e até já fui publicado em colectâneas ou revistas de literatura, não me considero um escritor. Uma socialite que tenha um livro nas bancas, por pior que ele seja, é mais escritora que eu. O que me leva a outra questão: a de que não é preciso ser um escritor para se escrever. De que interessa ser apelidado de escritor, se o que faz é manter um blogue, com mais ou menos qualidade literária? Passo agora a bola para si.

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    1. Caro Luís, nunca é tarde!

      Diz-me então que o fotógrafo só o é após a sua primeira fotografia e que o empregado de balcão só é após servir às mesas. Eu já tirei muitas fotografias e não sou fotógrafo e também já servi às mesas e não sou empregado de balcão. É verdade que o faço para uso individual, como o homem que corta a carne em casa e não pode ser considerado talhante.

      Entra em jogo a definição pelos proveitos. Tem o título quem de uma actividade retira proveitos. Assim, o Luís é escritor e também o são a socialite e o bloguer. Todos tiram proveitos da escrita, mesmo que os proveitos sejam ao nível da notoriedade e reconhecimento e nem sempre monetários.

      A qualidade literária é outra questão: quem a determina?

      Não tenho respostas para estas questões, apenas quero despertar a consciência para elas e suscitar o debate.

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